Mas e o PODER DAS PALAVRAS?


E aí, minha purpurina carnavalesca biodegradável. Como você está?

Queria começar com uma história não muito antiga, mas que vai agradar à massa nerd que acompanha essas postagens.

Lá na década de 1920, um russo muito do curioso chamado Ivan Pavlov resolveu fazer umas experiências com o comportamento de uns doguinhos. Ele se ligou que quando era hora de comer, os catiorros começavam a salivar. Então, o Pavlov resolveu fazer um barulho específico imediatamente antes da hora de eles matarem a larica. Notou-se que, depois de um tempinho, era só ouvir o barulho que os cães começavam a salivar. Finalmente, Pavlov decidiu tentar fazer o barulho SEM apresentar a comida. Os dogs salivavam só com o som, mesmo sem nenhum sinal de comida. Pavlov viu ali como rolava o esquema do condicionamento.

A conclusão foi a de que parte do que fazemos é inata, nasce conosco. Todavia, parte é aprendida e pode ser direcionada. E podemos usar isso para tratar traumas e fobias! Ou para te convencer através da publicidade que você precisa ter um iPhone. Que sem redes sociais, sua vida não presta. Que um Juliet vai te deixar mais chavoso. Que comunistas comem criancinhas.

Um ponto muito interessante da experiência do tal do Pavlov é que, quando nos referimos às reações, não precisamos necessariamente trazer as ações que teoricamente as causam (comida). Só mencioná-las ou "dar a entender" que elas estão ao redor (barulho). Elas ou "o que te convenceram que elas são". Se, após certo tempo, as tigelas de comida tivessem, sei lá, sola de sapato frita, os cães seguiriam salivando enquanto não comprovassem que não era comida. E a mesma coisa acontece conosco. Seres humanos de hoje em dia.

Em 1848, o Manifesto Comunista exibe o trecho (tradução livre): "Um espectro ronda a Europa - o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo [...]. Que partido de oposição não foi acusado de comunista pelos seus adversários no poder? Que partido de oposição, por sua vez, não lançou aos seus adversários de direita ou de esquerda a alcunha infamante de comunista?".

Em 1937, é instaurado por Getúlio Vargas no Brasil o Estado Novo, caracterizado pela centralização do poder, nacionalismo, autoritarismo e pelo anticomunismo. O Estado Novo durou até 1946. E deu merda.

Em 1964, ocorre o Golpe Militar contra o presidente João Goulart, o "Jango", um advogado proprietário de terras no Rio Grande do Sul que foi acusado de comunista, apoiador da luta armada revolucionária inspirada por figuras como Che Guevara. A luta armada só tomaria força APÓS o golpe, mas isso são detalhes. A ditadura se instaurou. E deu merda.

Em 1989, enquanto o Muro de Berlin caía e a URSS estava em crise, o discurso liberal e anticomunista (atacando ele mesmo, Lulinha do ABC) alavanca a eleição de Fernando Collor. Com o placar do primeiro turno colocando Collor em primeiro, Lula em segundo e Brizola em terceiro, o "caçador de marajás" muda o discurso no segundo turno. O cara que era defensor dos humildes contra os poderosos se torna baluarte dos símbolos nacionais, faltando vestir uma camiseta da CBF sobre o terno! O patriota lutando contra o comunista. E venceu. E deu merda.

Em 2018, Jair Bolsonaro é eleito, sempre evocando o nacionalismo e os valores da família. Além de massivo uso de fake news já conhecido por todos, o despreparo, a relação com milícias e o desmonte de direitos da classe trabalhadora, há um ponto central no discurso do presidente (e não se trata da falta de bom senso): o combate ao comunismo. Quanto a dar merda, deixo a criterio de quem está lendo.

Não é necessário ser doutor no assunto para entender que somos os cachorros do Pavlov, o barulho é a palavra "comunismo" (socialismo, Cuba, Coréia do Norte, vermelho, PT, Lula ou qualquer relação, dependendo do nosso nível de brisa e de quanto lemos/assistimos Olavo de Carvalho) e que, com esse "barulho" estamos sendo condicionados, né? Até porque é bastante complexo entender certos conceitos (apresentados no texto anterior, Mas e o VERNÁCULO?), para então podermos criticá-los.

Para vermos um exemplo claro de como a experiência de Pavlov rola no mundo real, podemos observar o epicentro do capitalismo: EUA. Um país que é marcado por guerras, xenofobia e segregação racial; e que possui a maior população carcerária do mundo (2.1 milhões de pessoas encarceradas). O atual presidente Donald Trump, também aliado a posicionamentos anticomunistas, vê como seu principal adversário um camarada de nome Bernie Sanders. Dá pra entender melhor assistindo ao vídeo do Thiago Ávila. E por quê Sanders representa uma ameaça a Trump no país mais anticomunista do mundo? Porque suas propostas agradam à população.

1. Por fim a todos os bancos "grandes demais para quebrar".
2. Desmantelar os grandes bancos.
3. Separar instituições comerciais de instituições financeiras.
4. Por fim à política do "grande demais para prender". Fez merda, pode ser o maior magnata da nação, a lei o tratará da mesma forma.
5. Criminalizar o modelo de negócios corrupto em Wall Street.
6. Taxar a especulação no mercado financeiro.
7. Reformar as agências de classificação de risco (que perderam credibilidade desde a crise de 2008).
8. Reduzir juros dos cartões de créditos e as taxas bancárias.
9. Permitir que correios ofereçam serviços bancários.
10. Reforma do Banco Central.

As propostas agradam. As propostas saltam aos olhos. As propostas estão alinhadas a uma lógica progressista. Sanders não tem medo de usar "aquela palavra". Mesmo conhecendo seu histórico. Estamos sob a possibilidade de haver uma guinada na maior economia capitalista do globo. Quer você acredite ou não no modelo de democracia praticado ali, isso afetará sua vida. Então é melhor você estar informado. E é louco sacar que essa treta tá rolando por causa do tal "poder das palavras"!

No entanto, aqui, nas periferias do capitalismo, deixo meu questionamento: Até quando seguiremos reproduzindo situações que, conforme nos mostrou a História, foram danosas, por medo do poder das palavras?

Se as palavras têm poder, lembre-se que você pode usá -las para atacar. Não estamos sozinhos em silêncio. Estamos fazendo barulho separados.

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