A minha avó Antônia dizia "Não entendi patavinas". Eu digo "Ma que porra é essa?".
Meu avô Aurélio falava que o problema era "dor de cotovelo". Eu falo que é "recalque" mesmo.
Quem a minha avó Anália achava "lelé da cuca", eu acho que "tá fazendo a loca".
O que para meu avô Vicente era uma "fuzarca", pra mim é uma "zona".
O que meu tio Augusto achava "de lascar", ou meu tio Euvéssio achava "russo", eu acho "embaçado".
Meu tio Altair chegava dizendo "Fala, bicho! Aquele cara é batuta, né?". Eu chego dizendo "Salve, cachorro! Viado, na moral, aquele mano é firmeza pa caralho, falaê?". Talvez mesclar gírias gays com gírias de quebrada seja um caminho sem volta.
Meu tio Aurélio, filho do meu avô Aurélio, convivia com alguns "chatos de galocha". Eu convivo com alguns "pau no cu" mesmo (sem plural porque paulista ignora essa regra).
Minhas tias Suely e Eliana viam "a galera paquerar". Eu vejo "geral dando ideia".
O "brother" do meu primo Ângelo seria meu "parça".
Quem meu primo Anderson chamava de "patricinha", eu conheço por "loira odonto".
Quem estava "viajando na maionese" para minha tia Silvana, "tá na Disney" ou "tá brisando" pra mim.
Se pro meu tio Álvaro tava "numa nice", pra mim tá "de boas" ou "suave".
O que meu primo Ailton entendia como "pinta na balada pro seu ex ficar grilado", eu conheço como "brota no bailão pro desespero do seu ex".
Os mesmos sentidos em novas roupagens. Uma linguagem adaptada aos novos tempos, mas mantendo a essência. A adaptação é necessária para novos tempos e novos públicos, mas o coração das mensagens segue inalterado. A prova disso é o texto Mas e o PODER DAS PALAVRAS, onde desde o séc. XIX se fala sobre a "ameaça comunista".
Às vezes penso que a principal característica dessa ameaça é a procrastinação, porque eu nunca vi um povo demorar tanto pra instaurar uma ditadura! Meu, um cabo, um soldado e um AI-5, fecha o Congresso, fecha o STF, mete uma bandeira da sua preferência e já era - a receita é simples! Tem deputado ensinando no YouTube! Povinho preguiçoso...
Mas voltando ao assunto, eu sou bastante fascinado por como a linguagem se desenvolve e como símbolos, signos e ícones rodeiam nossa realidade. Às vezes, isso é tão inconsciente que basta alguém cantar "Let It Go" pra fulano colocar um moletom. Basta alguém oferecer uma "maçã vegan" pra beltrano fazer cara de nojo (sendo que TODAS as maçãs são vegan!). Basta um eleitor perguntar sobre o Queiroz pra ciclano começar a gritar palavrões e o segurança tentar partir para a agressão até notar que estava sendo gravado. A semiótica é um negócio muito intrigante. E o mais legal é que ela não se resume a palavras. Quer ver?
Mussolini evocava o passado glorioso do Império Romano. Erdoğan, presidente da Turquia, faz o mesmo hoje com o Império Otomano. E ambos colaboraram ou colaboram para o genocídio.
O que Hitler chamava de "arte degenerada" ao som de Richard Wagner, Bolsonaro só copia mesmo.
Na década de 1930, Mussolini era acusado de ser impulsivo e falar sem pensar. Ainda bem que não havia memes naquela época, né?
Hitler baniu inúmeros pensadores das fileiras literatura nazista. Livros foram queimados em nome dos valores tradicionais alemães. Livros que incitaram o pensamento crítico. Pensamento critico que hoje é atacado como "ideologia de esquerda", mesmo que parta de alguém que sequer se identifica com o espectro político esquerdista.
Mussolini apoiou a lógica da superioridade ariana. Hitler a endossou com manipulação de teorias científicas pouco confiáveis e muito enviesadas (eugenia e criminologia positivista). Bolsonaro não se furta de declarações racistas e xenófobas. A História mostra, algumas vezes, que transformar o "diferente" em "criminoso" é uma questão de tempo.
Os nazifascistas sempre recorreram a classes social e/ou economicamente frustradas - e não é diferente com a "nova classe média" e o pobre periférico que foi abandonado pelas inexistentes políticas de base nos governos petistas.
A guerra era a solução na Alemanha e na Itália. Hoje, não é diferente no Brasil.
Era Duce. Era Führer. É Mito.
Masculinidade era absurdamente exaltada, sobretudo por Mussolini. Será que a roupagem mudou?
Uma das expressões de ordem do Fascismo italiano era o "Me ne frego". Traduzindo na época, era o Benito dizendo "Não me importo". Mas se adaptarmos para os dias de hoje...
Alguns têm retroescavadeiras. Outros têm coquetéis molotov. Eu só tenho esse humilde espaço. E você.
E você?

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