Quando eu era criança, eu brisava numas palavras. Sei lá, achava bizarro que dava pra confundir termos parecidos que tinham significados diferentes. Tipo "pecador". Achava bizarro chamar quem peca de pecador. Mas não conseguia pensar numa alternativa. "Pecadeiro" pareceria que quem pecou foi um palhaço. Ao mesmo tempo, pecador lembrava pescador, e como tem os dois lá na história de Jesus, eu achava irresponsável por parte de quem tinha definido a gramática. Dava margem ao erro, sabe? Pensa em Jesus falando "Sede pecadores de homens!". Uma tradução errada e as igrejas hoje seriam locais onde se rouba, se mente e se engana pessoas. Já imaginou que absurdo?
Essa minha viagem com as palavras continuou quando cresci, tanto que virei professor de idiomas, né? Certa vez, eu ensinava português a um estudante austríaco que tinha muita dificuldade com questões de gênero (por motivos de "alfabetizado em alemão") plurais e as benditas palavras parecidas (principalmente "namorada"/"numerada"). Ao tentar provar seu domínio sobre essas dificuldades, ele me apresentou, com muita dificuldade, a frase "Eu sempre cumprimento as amigas da minha namorada com um beijo na BOCHETA.". Após uma rápida olhada no Google Images e muita risada, ele fez o mesmo questionamento que eu: por que palavras tão parecidas para coisas tão diferentes?
Talvez, nos falte vernáculo, sabe? Quantidade de palavras? Se tivéssemos um vocabulário mais amplo, talvez isso não fosse um problema.
Então, até como exercício para mim mesmo, resolvi fazer um rápido glossário, pois nos dias de hoje vejo que muita gente sofre do mesmo problema.
Opinião: maneira de pensar, de ver, de julgar. Não é irrevogavelmente válida. Pode mudar. Geralmente demanda conhecimento sobre o assunto. Não refuta fatos. Se for sobre tópico desconhecido ou sem base que fundamente, o nome é preconceito.
Fato: algo cuja existência pode ser constatada de modo indiscutível; verdade. Costuma ter veracidade conformada por diversos corpos de estudo, de diferentes áreas. Refuta opiniões.
Cristianismo: religião da fé em Jesus Cristo, de sua ética e sua promessa de redenção. Cabe explicar que está doutrina não apoia tortura, vendilhões em templos, associação a setores corruptos e criminosos das forças de segurança ou opressão estatal, seja ela romana, alemã ou brasileira.
Direita: No espectro político, a direita descreve uma visão ou posição específica que aceita a hierarquia social ou desigualdade social como inevitável, natural, normal ou desejável. Esta postura política geralmente justifica esta posição com base no direito natural e na tradição. Aceitando a desigualdade como inevitável, tem por objetivo uma sociedade mais eficiente. Pode defender mais ou menos Estado.
Esquerda: No espectro político, a esquerda se caracteriza pela defesa de uma maior igualdade social. Normalmente, envolve uma preocupação com os cidadãos que são considerados em desvantagem em relação aos outros (as chamadas "minorias", que não necessariamente estão em menor número na sociedade) e uma suposição de que há desigualdades injustificadas que devem ser reduzidas ou abolidas. Não aceitando a desigualdade, tem por objetivo a igualdade. Pode defender mais ou menos Estado.
Anarquismo: teoria social e movimento político que sustenta a ideia de que a sociedade existe de forma independente e antagônica ao poder exercido pelo Estado, sendo este considerado dispensável e até mesmo nocivo ao estabelecimento de uma autêntica comunidade humana. Não é sinônimo de algazarra, tampouco de rebeldia adolescente.
Capitalismo: sistema econômico baseado na legitimidade dos setores privados e na irrestrita liberdade de comércio e indústria, com o principal objetivo de adquirir lucro. É também o sistema social em que o capital está em mãos de empresas privadas ou indivíduos que contratam mão de obra em troca de salário. Não tem nada a ver com o melhorias da qualidade de vida da população. Não tem a ver com diminuição das desigualdades sociais através da liberdade de mercado, até porque se não houver a desigualdade (e seus efeitos colaterais como o desemprego em massa), a logica da competição cai por terra e esse sistema começa a ruir. O capitalismo precisa da desigualdade e da injustiça social para se manter.
Socialismo: doutrina política e econômica que prega a coletivização dos meios de produção e de distribuição, mediante a supressão da propriedade privada e das classes sociais. É também o estágio intermediário entre o fim do capitalismo e a implantação do comunismo. Não tem nada a ver com não trabalhar (isso se chama "burguesia"), com roubar o dinheiro de quem trabalha (isso se chama "capitalismo") nem com doar tudo o que tem aos pobres (isso faz parte da doutrina do cristianismo, inclusive).
Comunismo: organização socioeconômica baseada na propriedade coletiva dos meios de produção. Nunca foi alcançado na história da humanidade. É o objetivo final dos socialistas e dos anarquistas. Não come criancinhas. Não matou octilhões de pessoas mais que outros sistemas econômicos. Demanda estudo de diversas áreas do conheciento para sua compreensão (não basta gostar de fulano que curte cachaça ou desgostar de fulano que curte fazer arminha com a mão).
Ideologia de gênero: essa porra não existe. Para de ser nóia!
Filosofia: no âmbito das relações com o conhecimento científico, conjunto de princípios teóricos que fundamentam, avaliam e sintetizam as ciências particulares, contribuindo para o desenvolvimento de muitos destes ramos do saber. Demanda aplicação do método científico de investigação, além do conhecimento de outros pensadores para embasar sua lógica e suas conclusões. Não está no mesmo patamar de "opinião". Lida com a percepção dos fatos. Não inclui Olavo de Carvalho, porque ele não respeita o método científico.
Achei relevante inserir este glossário porque hoje, 18/fev/2020, voltei a ministrar aulas. Em meio à aula, refleti: e se eu, que tenho a autoridade de professor, estivesse fazendo uso desta autoridade para disseminar mentiras e informações que poderiam prejudicar meus educandos? Isso seria muito errado, não é? É inimaginável o efeito destrutivo de tal ação!
Então, você que eventualmente não tem a autoridade de professor, mas possui o poder da comunicação - já pensou que, ao comentar, opinar ou mesmo defender uma ideia sem buscar informações a respeito do assunto, pode provocar o mesmo efeito destrutivo que mencionei acima?
"Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio neste mundo." - WILDE, Oscar.

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