Mas e a CAMINHADA?

A caminhada é um exercício muitas vezes subestimado. Quando observamos a corrida, o famoso cooper, o atletismo, o tiro de 100 metros... toda a agitação... toda a explosão... aquilo nos deixa animados e excitados. E talvez por causa disso tenhamos a tendência de ignorar a caminhada. Porque a caminhada é simples. Ela não exige muito. Ela é praticamente um ato natural. Ela não tem tanta explosão, tanto suor; ela demanda uma respiração compassada... nada muito fora do normal. Mas a caminhada segue sendo um exercício fundamental.

Pesquisas revelam que a caminhada proporciona benefícios ao cérebro, dá energia, combate a depressão, melhora a qualidade do sono, previne doenças cardiovasculares, trabalha os músculos, controla o colesterol e a diabetes, combate a osteoporose, é benéfica na gestação, emagrece e permite que você se afaste daquele cunhado terraplanista ou daquele primo incel.

Eu acho que o ponto mais crucial da caminhada seja sua constância. Lentamente, sem grandes arroubos, porém num ritmo constante. Isso faz muita diferença. E eu não vou mentir nem ser hipócrita: não sou a pessoa mais constante do mundo. Se fosse, vocês perceberiam pelas publicações desse blog e no canal do YouTube. Talvez isso me leve a sentir uma certa inveja de quem tem na caminhada uma atividade regular. Pessoas que conseguem caminhar sem pressa, sem desespero, sem acreditar que o tempo da caminhada poderia ser aproveitado de outra forma (talvez correndo, talvez atingindo mais objetivos, talvez com multifunções, talvez ouvindo aquele podcast ou assistindo àquele vídeo no YouTube na velocidade 1.25)... eu tenho uma certa inveja dessas pessoas. Eu não sei se essa inveja nasceu comigo; eu não sei se essa inveja me foi incutida pelo sistema no qual estou inserido; tampouco sei se essa inveja é um reflexo do que foi feito de mim e do que eu fiz com o que foi feito de mim. A verdade é que eu sinto.

Sinto que essa tranquilidade às vezes parece ser o ápice de tudo que é inatingível. No entanto, numa análise mais profunda, talvez eu possa concluir que a inveja só se faz presente porque eu não caminho. E se caminho, as linhas não são retas. São em círculos.

Eu acho muito bonito quando as pessoas conseguem simplesmente colocar as coisas em seus devidos lugares no tempo e no espaço. Quando aquela foto antiga e amarelada aparece diante dos seus olhos e um sentimento de nostalgia te leva a observar aquelas pessoas e aquele você - e num ato súbito enviar uma mensagem para as versões atualizadas daqueles jovens, o baque de uma reação igualmente atualizada que enxerga aqueles jovens como passado (não como um passado retornável) causa uma sensação difícil de transpor para o universo das palavras. Seriam essas pessoas cruéis ou seriam essas pessoas praticantes da caminhada? Elas só caminharam. Elas abriram espaço para a novidade. Elas observaram outras texturas. E elas estão certas. Há muitas folhas para nos agarrarmos à alface. Muitas frutas para ficarmos presos à maçã. E há uma infinidade de sabores de suco para que nós religiosamente nos atrelemos ao suco de manga. E por que não?

Eu digo o motivo. A caminhada, quando se afasta das verdades absolutas, se envolve numa aura de egoísmo. Mas o que é caminhar senão praticar seu amor-próprio? O que é caminhar senão colocar no topo das prioridades aquele que mais necessita estar nesse lugar: você, mesmo?

Você já caminhou hoje?

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