Chove. Mas não há relação alguma com meu interior, como gostavam de brincar aqueles que intermediavam o Romantismo e o Realismo. Ela não representa uma natureza que chora. A chuva, tal como detentora de qualquer verbo intransitivo, simplesmente chove. Mas, eternos guerreiros em busca de uma expressão menos prolixa que somos, que meio mais adequado para minimizar o extremismo monossilábico senão a inserção do bom e velho "inclusive" no tocante a adjetivos passíveis de desenvolvimento lírico-literário?
Pois bem:
A chuva chove. Inclusive, não somente chove, mas também lava (a despeito do nosso know-how acerca de suas propriedades ácidas). Metaforicamente, seria a alegoria perfeita. O homem que se lapida dia após dia e incessantemente tropeça nas lascas de pedra e lama do processo. Aquele que, num dos galhos dessa gigantesca árvore de ascensão, descobriu que a cessão que o desespero faz à fúria não ajuda em nada. Os efeitos colaterais somente mudam, mas o cerne do problema permanece inalterado. Defeito de fabricação? Talvez. Dano devido a uso inadequado? Mui plausível. Tendência à quebra? Igualmente aceitável. Tudo isso permaneceria igual, seco ou encharcado. Com ou sem chuva.
Então, no final das contas, a chuva não faz diferença? As luzes, acesas ou apagadas, não fazem diferença? Os potes de ouro no fim do arco íris, sendo vermelhos ou azuis, não fazem diferença? As decisões que levam a sorrisos sinceros não fazem diferença? As razões não fazem diferença, somente os resultados?
Em um mundo matemático, isso faz muito sentido. Infelizmente, doutrino-me dia após dia para compreender a não-matemática do mundo. Lembro-me que embora o mundo seja matemático, as pessoas não sabem matemática. Portanto, tais visões não me fazem sentido. Não mais. Lapidei-me para a verdade nua. Aparentemente, para a chuva, precisamos da capa.
Talvez a chuva não somente chova. Talvez isso seja somente o que nós, em nossa insignificância, alcancemos. Talvez a chuva tenha sonhos. E talvez, eles tenham sido cancelados. Quem sabe? Quem é capaz de dizer que fala e compreende o idioma da chuva?
Resta-nos, trogloditas, a mais penosa das tarefas; a provação final: sentir.
Texto de 16/nov/2016. Considerei plausível para que o que somos não se esqueça do que fomos.

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