E aí, seu assistidor de live do Instagram? Tudo belezinha?
Em fevereiro de 2017, o The Guardian publicou o artigo de opinião “Sex doesn’t sell any more, activism does. And don’t the big brands know it” sobre como o ativismo pode ser lucrativo. Mas será que agora tudo é ativismo? Será que agora tudo é preconceito? Será que agora tudo é motivo pra fazer meme do "minha filha" do Dr. Dráuzio?
Sim, minha gente com carência de vitamina D - hoje em dia, tudo é ativismo. Tanto por termos a internet ampliando vozes que antes não eram ouvidas, quanto pelo fato de o sistema cooptar diversas lutas para seu rol de produtos lucrativos.
No entanto, em meio a racismo, misoginia, homofobia, gordofobia, capacitismo, transfobia, cristofobia (desculpa, eu não estava encontrando espaço para encaixar a piada, então foi aqui mesmo), o que vem antes e o que vem depois? Eu posso relevar o racismo de um homossexual? Dá pra passar pano para aquele comentário machista do seu amigo negro? E sua amiga que é negra, trans, lésbica, nordestina, gorda e deficiente auditiva - ela tem um desconto quando fala que imigrante do Haiti e da Bolívia tinha mais é que morrer? E no caso dela, quando rolar um preconceito, dá pra saber qual preconceito está rolando? Acho que não, né? Porque ela representa um conceito muito em voga, mas pouco entendido. Essa sua amiga representa o conceito da interseccionalidade. Bora entender com quem manja do assunto?
Desde ontem [12/abr/2020]:"raça vem primeiro","gênero vem primeiro" e olha, não é sobre isso. Como pesquisadora do conceito de interseccionlidade vou falar umas coisinhas:
A ideia não é identificar quais marcadores sociais vêm primeiro (gênero, raça etc.), pelo contrário.
[Quando falamos em interseccionalidade] A ideia é olhar para a SOBREPOSIÇÃO desses diversos marcadores que incidem sobre sujeitas/sujeitos e identificar qual sujeito/sujeita está em uma situação mais vulnerável por conta de sua identidade, suas subjetividades e outros fatores semelhantes.
E AGIR com base nisso!
A [Kimberlé Williams] Crenshaw e a [Carla] Akotirene usam a metáfora das avenidas e dos cruzamentos para refletir sobre isso: os marcadores são avenidas, os sujeitos/as sujeitas ao longo de suas vidas são posicionados nos cruzamentos dessas avenidas, de acordo com suas identidades, subjetividades etc.
Se uma pessoa está no cruzamento das avenidas: pobreza, gênero feminino, "raça" negra e de sexualidade não hegemônica, ela está mais suscetível a sofrer "acidentes sociais" = discriminações, violências, preconceitos etc.
Assim, a discussão não é se uma atitude trai ou não um grupo (racial ou de gênero), mas se socorre o sujeito/a em uma situação de maior vulnerabilidade.
Ademais, respirem um pouco!
O que a Pâmela Guimarães, mestra e doutoranda em Comunicação Social pela UFMG, traz aqui é um pouco do que vem sendo distorcido nos últimos tempos e, por isso, pede um pouco mais de atenção. Se você estiver na Rua Racismo e sofrer um acidente (tipo um idoso branco insinuar que você pretende roubar um hipermercado por conta da sua etnia), virá a ambulância do racismo para te ajudar. Se você sofrer um acidente, por sua vez, na Rua Misoginia (tipo eventualmente ejacularem no seu ombro em uma viagem de ônibus), aí ativam a ambulância da misoginia. Mas quando o acidente é no cruzamento (tipo ser sexualizada enquanto "mulata exportação"), quem te atende? Tem protocolo de atendimento para a mulher negra quando todos os negros da empresa que a dispensou são homens (então a empresa não é racista) e todas as mulheres da mesma empresa são brancas (então a empresa não é misógina)? Não tem, mas precisa ter.
Muito se falou nessa semana do voto da Thelma no Babu (sim, porque uma dose de alienação mantém a saúde mental em dia). Estaria ela "colocando o feminismo acima de sua 'raça'"? Seria uma "traição ao irmão de cor"? Ela era mais mulher que negra??? Ao dialogarem com tais absurdos, além de se alinharem ao devaneio psicodélico que nosso país tem se tornado sob o atual governo, as pessoas confirmam a necessidade do aprofundamento na lógica da interseccionalidade. Thelma está no cruzamento entre racismo e misoginia. Sabe aquela rua onde nenhuma ambulância vai te salvar? Ela apanha de ambos os lados de diferentes formas. E você, homem hétero-cis branco de classe média, usuário de sapatênis, criado a leite com pera e ovomaltino, e que nunca pisou numa favela, quer perguntar pra ela qual dos preconceitos dói mais?
"Mas Allan, hoje em dia tem lesbofobia, bifobia, capacitismo... é uns preconceitos que eu nem sabia que existia. Tem até 'racismo contra gente que nem é negra' (um brother japa me contou). Aí é embaçado, né? Muita coisa. E acho que nem tudo é tão sério, sabe? Tem coisa que é exagero." - Meu petit-four da Caledônia, suponhamos que você é a única pessoa que, após a quarentena, surge com quatro tufos de cabelo, longos e lisos. Eles crescem idefinidamente, mesmo após serem cortados. Estão na altura da cintura e aparecem para fora das calças - se por isso as pessoas se afastassem de você nas ruas; e isso influenciasse negativamente a sua vida, certamente você encabeçaria o movimento anti-tufofobia, não? Caso encerrado.
Hoje podemos não ter todo o conhecimento que precisamos para combater nossos preconceitos. E tudo bem. Temos uns aos outros, dois olhos, dois ouvidos e uma boca. A solidariedade preenche esse espaço.
Os cruzamentos são muitos. Mas e quanto a você? Você está nas vias para levantar muros ou ajudar nas pontes?

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