Mas e o RODRIGO BOCARDI?

E aí, meu cajuzinho de consciência de classe? Vamos começar de um jeito diferente essa semana? Então assiste a esse vídeo e depois a gente volta pra conversa, firmeza?
Assistiu? Então a gente pode começar a falar sobre as tais "raízes" do problema. E eu não estou falando do romance "Raízes: A Saga de uma Família Americana" escrito pelo autor norte-americano Alex Haley, mas se quiser ler, fica a dica.

Faz um tempinho que a escravidão foi abolida no Brasil. Tempinho mesmo, porque quando a gente fala de História, 132 anos não significa nada. E o Brasil foi o último país da América a "libertar" seus escravos. Digo "libertar" porque desde 1888 esse conceito de que "negro é gente" incomoda bastante a muitas pessoas. Tanto que houve estudos e mais estudos dentro de uma pseudociência chamada eugenia, que buscava justificar que algumas "raças", povos ou etnias eram superiores a outros. Vários personagens históricos beberam dessa fonte (mais poluída que a água do Rio de Janeiro) para justificar suas políticas. Hitler, com judeus, negros, ciganos, eslavos etc; Mussolini, quando brisava dizendo que os italianos eram descendentes dos gloriosos etruscos; Gustavo Barroso, quando traduziu "O Protocolo dos Sábios de Sião", que era tipo o Olavo de Carvalho da época... teve até um cara que disse recentemente que "cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós". Com um pouco mais de estudo e vergonha na cara, a ciência entendeu que "raça" mesmo, só existe a humana, e que as diferenças étnicas são meros detalhes. Pena que para as sociedades não é tão simples...

Nos EUA, existe a "regra de uma gota", afirmando que qualquer pessoa com mesmo um único ancestral de ascendência africana subsaariana ("uma gota" de sangue de negros) é considerada negra. No Brasil, as coisas não são tão "claras". Aqui, a forma como a sociedade te enxerga diz mais sobre sua etnia do que o seu DNA em si. Você pode ter ascendência negra, mas se tiver pele mais clara e traços mais europeus, passará por menos aperto que negros de pele retinta e traços obviamente africanos. Mas isso significa que a filha de negro, neta de negro, que por peculiaridade genética saiu com a pele mais clara, é menos negra??? Quem responde???

O princípio básico da nacionalidade italiana é o jus sanguinis, ou seja, é cidadão italiano o indivíduo filho de pai italiano ou mãe italiana.
As leis de nacionalidade alemã também seguem primariamente o princípio jus sanguinis (em alemão: Abstammungsprinzip, por isso que eu escrevi em latim), mas alguns reconhecimentos de nacionalidade alemã também são possíveis através de nascimento em solo alemão, tornando a Lei de Nacionalidade Alemã atualmente tanto jus soli quanto jus sanguinis para determinados casos previstos em lei.
Já japoneses nascidos fora do Japão não podem ter dupla cidadania após os 22 anos, tendo que optar por uma das pátrias.
Os judeus por sua vez precisam ter nascido de ventre judaico. Em caso de pai judeu casado com mãe não-judia, os filhos não serão judeus.
Estamos tratando de povos organizados em nações ou grupos. No caso do negro brasileiro essa organização nunca foi permitida, então como se define quem é e quem não é negro? Tem regra na lei? Dá pra lançar uns filtros de Instagram e meter aquele loco no SISU?

Já que mencionei os judeus, vou seguir usando como exemplo. Desde o séc. XV, a perseguição antissemita na Espanha e em Portugal era terrível. Quando rolou o Holocausto na Segunda Guerra Mundial, onde mais de 6 milhões de judeus foram exterminados, um movimento de resistência judaica chamado sionismo ganhou força, fomentando inclusive a criação do Estado de Israel. O sionismo é também chamado de nacionalismo judaico e propõe o fim da Diáspora Judaica (um monte de judeus espalhados pelo mundo), com o retorno de 100% dos judeus ao atual Estado de Israel. O movimento defende a manutenção da identidade judaica, opondo-se à assimilação dos judeus pelas sociedades dos países em que viviam.

Mas e se os negros fizessem a mesma coisa? Já pensou que brisa? Se você não pensou, saiba que como gente como o estadunidense William Edward Burghardt Du Bois, o jamaicano Marcus Mosiah Garvey, o ganense Kwame Nkrumah e o brasileiro Abdias do Nascimento pensaram. Tanto pensaram que deram um nome: PAN-AFRICANISMO.

Eles propunham a unidade política de toda a África e o reagrupamento das diferentes etnias, divididas pelas imposições dos colonizadores (ou você achava que o mapa da África tinha países com fronteiras quadradas porque os africanos eram metódicos?). Valorizavam a realização de cultos aos ancestrais e defendiam a ampliação do uso das línguas e dialetos africanos, proibidos ou limitados pelos colonizadores (leia-se: branco europeu safado cheio de DST que saiu convertendo geral ao cristianismo à força).
Em outras palavras, o pan-africanismo é um movimento político, filosófico e social que promove a defesa dos direitos do povo africano e da unidade do continente africano no âmbito de um único Estado soberano, para todos os africanos, tanto na África como em diáspora. Seria como Israel, mas gigante e com uma história mais cheia de buracos, graças a figuras como Ruy Barbosa.

"Mas e se você tá usando o turbante de um povo que era inimigo dos seus antepassados?" - "Mas todo mundo é mestiço, esse negócio de orgulho negro não faz sentido." - "O Brasil é o país da miscigenação; não dá pra dizer quem é negro e quem não é (a não ser que você seja policial)". Então, meu pão de mel vegano de bom senso, eu estava conversando com uma amiga que veio ao Brasil recentemente - Angela Davis o nome dela - que comentou que devemos parar de ter medo de nossas contradições e lidar com elas mais de boas. Então, ninguém tem resposta pra tudo, mas nada impede de construir essas respostas no processo, né não? Eu até citei no texto o Abdias do Nascimento, que fez várias fitas erradas... Mas a gente leva em consideração os pontos positivos do cara e se não for o Petrix, dá outra chance, como disse o Joaquin Phoenix no Oscar...

Eu não estou dando nenhuma receita de bolo sobre como fazer uma revolução étnica nem nada (até porque nem mencionei a parte de como conseguir munição, da necessidade de estudar para falsificar documentos estilo Parasita...), mas você não acha no mínimo injusto que exista toda essa história, toda essa luta... e ninguém tenha te contado?

Não estamos e jamais estaremos lutando de maneira leal enquanto o inimigo esconde de nós nossas armas.

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