Mas e a PREFIGURAÇÃO?

Meninos, meninas e menines, tudo bom com vocês? Bom, espero que sim.

E também espero que você não sofra acidente de automóvel porque não tem mais DPVAT, né, mores?
E também espero que todos estejam correndo atrás de uma previdência privada, porque a Reforma da Previdência vai foder geral a população mais pobre.
E também espero que sua bolsa de pesquisa científica não tenha sido cortada.
E também espero que você não tenha sido vítima de flagrante forjado pela polícia (e essa indireta vai pra conta da Dilma, só pra vocês não me chamarem de petista, hein?).
E também espero que você não esteja propenso a desenvolver nenhum tipo de irritação na pele e mucosas, náuseas, vômitos e gastroenterite por ter consumido frutos do mar, vegetais e mariscos afetados pelo óleo da Shell venezuelana grega do Greenpeace na costa brasileira. No caso de peixes, você pode se dizer sapiossexual e estar seguro por só comer os inteligentes.
E também espero que caso você seja um condenado em segunda instância liberto por ter um corpo de advogados influente, reflita que seu partido precisa tanto de autocrítica quanto o Jair Bolnosaro precisa de um personal stylist.

Mas eu, que sempre tive dificuldade para entender ditados populares por causa da minha pouca capacidade lúdica, relembro que "quem espera sempre cansa".

Meus quitutes de festa da firma, do que vocês estão cansados? É do seu trabalho escroto onde você não é respeitado? É do seu chefe que te manda mensagem às 23h avisando que você precisará estar às 8h do dia seguinte num bairro estupidamente inacessível, no melhor estilo #DáSeusPulo? É do preço absurdo do cinema? É da mensalidade da faculdade que não para de subir? É do clube que não consegue ter o mínimo de organização e coloca uma festa universitária e um casamento no mesmo final de semana? Do que vocês estão cansados?

Bom, eu poderia dizer que estou cansado de tudo isso (se não estivesse desempregado - inclusive #MandaJobs). E, como de praxe, estou cansado das pataquadas do governo do Biroliro e da ascensão de regimes autoritários na América Latina (vocês leram o texto da Bolívia semana passada, né? Então dá um Google sobre o que rolou na Embaixada da Venezuela na quarta feira, 13/nov/2019). Mas adianta a gente reclamar? O que mais podemos fazer em relação ao que nos cansa?

Eu fico sempre refletindo nisso. Não dá pra simplesmente mandar o trabalho às favas porque boletos. Não dá pra manda o patrão ir se foder, direto pro rh porque ninguém aqui é o MC Livinho. Não dá pra entrar na miúda no cinema, porque em vez de causar prejuízo para o Cinemark, você vai ferrar um trabalhador explorado que será responsabilizado por sua atitude enquanto o cinema segue lucrando horrores. Não dá pra simplesmente parar de pagar a facul porque o SPC vai sujar seu nome e o Ciro Gomes ficou em 3° lugar nas eleições. Não dá pra processar o clube e a organização do evento porque... Ei, perae... esse dá pra fazer. Vou acionar uns parceiros e depois volto nesse assunto... hehehehe

Mas o que me move e eu queria trazer aqui é justamente o que dá pra fazer (ler com a voz do Geraldo Alckmin pra ficar mais engraçado). O Mário Sérgio Cortella (nunca pensou em ver esse nome aqui, eu sei) diz: "Faça o teu melhor, na condição que você tem, enquanto você não tem condições melhores, para fazer melhor ainda!". Espero que você tenha lido com a voz dele. Caso não tenha conseguido, é mais ou menos assim: "Fass teu melior, na condsão que você temmm, enquant você não tem condições melhiorex, p'ra f'zer melhior ainnnda!". E é sobre fazer as coisas com esse pensamento que eu gostaria de refletir com vocês.

prefiguração
substantivo feminino
  1. ato ou efeito de prefigurar(-se); antecipação, antevisão.

Não há como negar que os rumos do mundo não são animadores. E não digo isso para as minorias. Digo isso para a humanidade como um todo. Se não mudarmos o modo como as coisas acontecem, não vai mais ter mundo (pelo menos não pra você que não tem a grana do Elon Musk e do Jeff Bezos).

Então, em quais pontos da sua vida você, que sabe que a mudança é necessária, mas não consegue porque pipipi popopó, pode aplicar a prefiguração (mudar o que é possível agora, para mudar para algo de fato melhor quando tiver condições)?

"Não consigo me tornar vegano!" - Consegue dar uma pesquisada em marcas que não testam em animais? Ou diminuir seu consumo de animais no ritmo que você aguenta?
"Não concordo com trabalho escravo, mas como eu vou resolver?" - Já pensou em marcas alternativas de chocolate? Roupas de outras marcas que não as que sabemos explorar mão de obra escrava? Diminuir seu consumo de roupas, afinal você definitivamente não precisa de 50 pares de sapato?
"Meu, tem gente sendo cegada pela polícia no Chile, foram 8 mortos pelo exército na Bolívia dia 16/nov/2019, Equador tá pegando fogo - mas o que dá pra eu, sozinho, fazer?" - Primeiro: você não está sozinho, só separado dos outros. Fóruns, associações, agremiações, torcidas organizadas (sim) e grupos políticos em geral estão aí a uma "googlada" de distância. Segundo: eu sei que muita gente que acompanha esse espaço não tinha noção de boa parte dos assuntos que eu trago aqui. Ler meu blog vai transformar essas pessoas em ativistas radicais? Talvez sim, talvez não. Mas mais gente terá ciência da importância dos assuntos aqui trazidos. E isso é prefiguração. É criar condições para que o modelo de sociedade que eu quero possa sair do campo das ideias e cada vez mais se tornar realidade numa lógica coletiva.

A sociedade que eu quero para meus filhos e netos é uma sociedade na qual o capitalismo tenha sido superado. Uma sociedade na qual o modelo de produção extrativista esteja obsoleto. Uma sociedade na qual as pessoas possam de fato trabalhar 8h, dormir 8h e ter 8h de lazer. Uma sociedade na qual consumir não seja o centro da vida. Uma sociedade na qual as pessoas entendam que não faz sentido pagar R$ 250 em uma furadeira Makita para usá-la duas vezes ao ano, quando o seu bairro ou condomínio poderia ter um serviço de aluguel de furadeira por R$10. Uma sociedade na qual as pessoas não mais se alimentem de animais. Uma sociedade na qual plantar sua comida não seja coisa de "bicho-grilo", mas algo corrente e comum. Uma sociedade na qual mulheres não precisem provar seu valor todos os dias pelo simples fato de serem mulheres. Uma sociedade na qual racismo, sexismo, xenofobia, LGBTQIA+fobia e outras aberrações sejam vistos como o que são: aberrações. E eu sei que, em grande parte dessas aspirações, você concorda comigo. Mas não consegue, né, Moisés?

Muitos afirmam que essa visão é utópica [ainda bem - ainda bem que não é "idealista" (Tio Marx mandou um beijo e pediu para vocês darem uma pesquisadinha em Materialismo Histórico Dialético - vai ser tendência na próxima estação)]. Que as coisas sempre foram assim (não, nunca foram. A gente nunca viveu consumindo tanto quanto hoje). Que não tem como mudar (disseram isso do Feudalismo também - mas hoje, quem apoiava esse discurso não tem mais cabeça pra isso). Mas eu rebato dizendo que, mais que criticar o que não gostamos, podemos sugerir alternativas.


Esse espaço está aqui para isso. E você? Quais são as suas alternativas para mudar tudo isso daí? Bora discutir?

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