Mas e a DISTOPIA?

O indivíduo, que não quis se identificar com medo de perseguição no emprego, afirma que, apesar de negro, é funkeiro há aproximadamente três anos, mas estranhamente diz não apoiar ideologias de ódio, tampouco ações violentas contra minorias. É difícil de acreditar. Veja seu relato:

"As pessoas não entendem porque não querem entender. A informação está na internet desde quando ela ainda era paga! Nós somos funkeiros, os verdadeiros, originais. Eu já repeti essa história um milhão de vezes, mas as pessoas insistem em acreditar no que a mídia fala. O verdadeiro funk, que nós representamos, era uma cultura de resistência apartidária. Surgiu no início do século XXI com um movimento cultural suburbano carioca intitulado 'Furacão 2000', que só queria saber de diversão. Conforme o movimento foi ganhando expressão, São Paulo trouxe uma vertente chamada 'Funk Ostentação' que foi um dos maiores fenômenos culturais da história do Brasil desde a antiga Bossa Nova (tanto que é referência até hoje dentre os músicos mais eruditos). Isso mais ou menos em 2010. Na época, o país passava por uma crise econômica e política que teve seu ápice entre 2015 e 2018. Teve até gente pedindo a volta da ditadura militar! A Direita conservadora se tornava cada vez mais raivosa, enquanto a Esquerda, que teoricamente seria representada pelo governo do então PT (atual PSDT, antes da fusão), estava abandonada e buscava nos ideais libertários e em novos partidos de extrema-esquerda um refúgio. Foi aí que começou o problema.

Diferentemente do rap, o funk encontrava os extremos da aceitação e do preconceito. Todas as mães temiam que seus filhos fossem funkeiros (assim como nos anos 1960, o rock, ou 'ieieie' era o pesadelo da família tradicional brasileira), e enquanto a elite intelectual direitista o execrava, os pensadores libertários e os extremistas comunistas o abraçavam como a mais legítima manifestação cultural popular. E, como tal, por que não ser usado para disseminar o ideal comunista? Por que não utilizar letras inspiradas em Stálin, Trotski, Lenin, Che, Chávez, Marx e Hegel (ou Engels, como dizem alguns revisionistas históricos)? E assim foi feito. Em meados de 2018, o funk havia perdido quase que completamente seu viés de sexo, maconha, diversão e ostentação, e servia como base para a ideologia política de extrema esquerda.

Até então, os funkeiros não eram vistos como mais do que massa de manobra, ou ignorantes suburbanos e favelados, mesmo não mantendo mais relação tão direta com as parcelas menos favorecidas da sociedade. Mas como toda ação tem uma reação, por volta de 2020, os movimentos de extrema direita também aglutinaram o funk, já completamente descaracterizado. Surgia o Neo-funk. Os bonés perderam as cores, os cordões de ouro deram lugar às identificações militares, as tatuagens traziam símbolos de ódio... E a violência começou a aumentar. Negros, LGBTs, esquerdistas, feministas, imigrantes, praticantes de religiões divergentes do 'normativo' e demais minorias foram perseguidos, e a mídia passou a classificar todo funkeiro como 'neofunker', como os deturpadores da cultura original se declaravam.

Em 2026, os funkeiros tradicionais de todo o Brasil que resistiam à constante ameaça da polícia e dos neofunkers (que tinham costas quentes graças às ações do então presidente Bolsonaro, do PSC, em seu terceiro mandato consecutivo) decidiram que havia a necessidade de um movimento de resistência. Era a volta do fluxo; eram coletivos de ação direta tocando desde a fase verdadeira do antigo Mr. Catra (sim, antes de você o assistir todo final de ano no especial da Rede Globo, ele foi funkeiro), o antológico e sempre presente 'Rap das Armas' (um hino de resistência), 'Rap do Silva' para os mais velhos e o grito de guerra 'Baile de Favela', o mais próximo que a nova geração tinha de suas origens. Estas ações foram fortemente reprimidas social, cultural e politicamente. O rock teve forte papel alienante para manter os jovens longe do funk, mas ainda acreditam que o intuito da música é inocente.

O que temos hoje são várias subdivisões do funk: os tradicionais, que querem resgatar o espírito Furacão 2000; os libertários; os anarquista (ou Malatestas)... mas todos nós nos opomos aos neofunkers e a seu discurso de violência e repressão (apoiado pelo governo) disfarçado de defesa da família tradicional brasileira, da moral e dos bons costumes.

Eu sou um Malatesta, sou funkeiro e acho um absurdo que, em pleno 2041, as pessoas não consigam enxergar um pouco além do que as revistas e emissoras mostram. Brinquedo é fiel às origens e não compactua com neofunker. NÃO PASSARÃO!!!"

Esse foi o depoimento do funkeiro acusado de agredir um estudante na saída do show do vovô do estilo, Mc Brinquedo. O funkeiro portava um soco inglês. Suspeita-se que o mesmo tenha ligação com o PCC. O estudante Geraldo Neves, que trajava boné preto, calças camufladas e insígnia militar, vem de uma família tradicional e nunca teve qualquer envolvimento com atos de violência. O mesmo tem uma tatuagem com a sigla MBL.

São Paulo, dia 1 de outubro de 2041, 8 horas da manhã.
Repórter José Manoel, para o Cidade Alerta.


Este texto foi escrito em outubro de 2016. É assustador notar como certas teorias vão deixando de ser impossíveis, ultrapassam o improvável e o absurdo vai se tornando aceitável. Até quando você pretende normalizar absurdos sob a lógica de "sempre foi assim"?

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