E aí, seu órfão de BBB! Tudo lindo?
Pois bem, aproveitando que fadas não existem, muito menos as sensatas (um beijo pro Emicida), acho que cabe falar sobre gente que coloca a mão na massa na vida real e sofre as consequências disso. Consequências maiores que a perda de seguidores e patrocinadores após festinha na quarentena (outro beijo, de máscara, para a Gabi, nossa digital influenza). É óbvio que o foco no momento é falar dos profissionais que estão se expondo a inúmeros riscos, mas até para não nos tornarmos um canal de um só assunto, acredito caber aqui outro tópico ignorado.
A internet, teoricamente, nos uniu. Nos permitiu acesso a informações impossíveis em 1992. Não fosse pelo Fantástico, eu jamais saberia dos conflitos em Sarajevo no início da década retrasada! Mas a enxurrada de informação nos impede de digerir, nos tornando tão ignorantes como seríamos se esse acesso não existisse. Em meio a tantos escândalos, fake news, absurdos da política e da internet, fica complicado manter o foco e entender situações alheias a tudo isso. E esse é o objetivo do texto de hoje.
Desligando o suficiente de todo o caos que vivemos, venha mergulhar noutra treta, de outro mundo. Um lugar que apresentei no texto Mas e a PÉRSIA? no já distante janeiro de 2020. Para quem não sabe, a Pérsia é o atual Irã, onde rolou uma revolução teocrática na década de 1970, transformando o país num estado religioso. As leis religiosas e as leis civis passaram a ser as mesmas. Seria como se no Brasil a Bíblia passasse a ditar as leis, regulando sobre casamento entre pessoas do mesmo sexo, ensino de identidade de gênero nas escolas, papel da mulher na sociedade e parlamentares afirmando que a África e seus habitantes são amaldiçoados. Também seria necessário proibir o consumo de carne de porco, mas a galera da teocracia gosta de esquecer as partes inconvenientes dos textos sagrados, né?
Pois bem - no Irã, uma das proibições é a aparição pública de mulheres com seus cabelos descobertos, obrigando o uso do véu, conhecido como hijab. Em 8 de março de 2019, Dia da Mulher, a jovem Yasaman Aryani e sua mãe tiram os hijabs, entram num vagão de trem feminino, entregam flores às mulheres, falam sobre esperança em um futuro melhor, onde usar o hijab seja uma escolha, e não uma imposição estatal; "eu sem o hijab, você com o hijab". O vídeo viraliza e Yasaman é presa acusada de "incitar e facilitar a corrupção e a prostituição" promovendo o "abandono do véu".
Yasaman é presa. As autoridades policiais ameaçam prender também sua família caso ela não "se arrependa". Yasaman se mantém firme. É condenada a 16 anos de prisão, sendo obrigada a cumprir ao menos 10 em regime fechado.
Nos últimos anos, os movimentos libertários femininos têm crescido no Irã. Homens e mulheres que fazem uso do hijab participam, pois o foco é a liberdade de as mulheres se vestirem como desejam sem medo de assédio, violência, ameaças ou eventualmente prisão. E a força desses movimentos tem assustado as autoridades iranianas, que obviamente respondem com força militar. Desde janeiro de 2018, pelo menos 48 ativistas pelos direitos da mulher foram encarcerados, incluindo 4 homens.
Eu já falei sobre o sistema carcerário em Mas e o ABOLICIONISMO PENAL?, deixando claro como as cadeias não passam de instrumentos de repressão estatal, não contribuindo para a segurança pública de fato. Mencionei os casos emblemáticos de Rennan da Penha e Rafael Braga, ambos no Rio de Janeiro. Hoje vemos o Irã repetir o Brasil. O futuro repetir o passado.
O estado teocrático iraniano, em nome da manutenção de sua hegemonia (leia Antônio Gramsci, por favor!), está roubando anos importantíssimos da vida de Yasaman. Tudo porque a visão dela busca um futuro com liberdade de escolha para uma classe oprimida a eras. A punição a Yasaman é parte de um espectro muito mais amplo de opressões à mulher iraniana. A qualquer mulher, aliás. A qualquer ser humano, aliás.
Você não verá Yasaman no Fantástico. O Thiago Leifert não vai mencioná-la no eventual BBB de setembro. É justo não sabermos sobre quem defende a mesma humanidade que nós?
Quando você é exposto a muita luz, talvez queiram esconder de seus olhos algo que eles não mais consigam alcanças nas sombras.

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