Mas e HIPÓCRATES?

Estava eu de plantão na emergência quando entra, trazido pela polícia, um rapaz baleado na cabeça

20 anos
Negro
Periférico
Vários piercings nas orelhas

Começa o burburinho:

“Se foi trazido pela polícia com ctz mereceu”
“Cara de pirangueiro”
“Esse povo nunca morre 🙄

Fazemos as primeiras medidas para tentar salva-lo ao som do descaso e do preconceito de algumas pessoas da equipe ao fundo.

Ele estava muito grave!

Após atendimento inicial, chamamos os policiais que o trouxeram para coletar a história.

Acontece que o rapaz morava em outro bairro e tinha ido para a casa da mãe pegar um documento porque ia começar seu primeiro trabalho na segunda.

Levou um tiro na cabeça enquanto entrava na casa da avó para visitá-la, confundido por um traficante com um cara da facção inimiga.

A família chamou a ambulância.

Que nunca foi pegá-lo.

Foi trazido ao hospital pelos policiais, que diziam:

“Ele é inocente, doutora”

A mãe do lado de fora estava destruída.

Enquanto o rapaz lutava por sua curta vida, um colega médico e uma técnica de enfermagem teciam comentários:

“Pai de família sempre morre, bandido nunca morre.”
“Se fosse bandido, eu fazia justiça e deixava morrer”

Entre outras frases que não vale a pena repetir aqui.

Respondi apenas que fiz medicina pra ajudar pessoas. Independente de quem fosse.

Se eu quisesse julgar, tinha feito direito e concurso pra juíza.

Sai da sala com os risos de chacota dos colegas de trabalho em relação a minha postura.

Pq é um ABSURDO uma médica pensar assim.

No fim, o rapaz infelizmente não resistiu.

Foi morto pela violência.

E não só pela violência física.
Mas pela violência estrutural.
Pela violência social.
Pela violência racial.

Sei único crime foi tentar viver sua vida.

Que descanse em paz.
Ceará, janeiro de 2020.


- Então, eu fui pro hospital, com os mesmos sintomas que você. O que aconteceu?
- É isso. Nós dois temos os mesmos sintomas. Talvez eu tenha atingido o mesmo grau de febre que você, mas a gente não mediu porque a gente tava dormindo. A gente tá com os MESMOS SINTOMAS: enjoo, vontade de vomitar, um pouco de reflexo de refluxo, a dor, a gente tá com os MESMOS SINTOMAS. Você vai no hospital público, que é um AMA e eu vou num hospital particular do convênio. Você sai com diagnóstico de gripe. Eu saio com diagnóstico de pneumonia. Nenhum dos dois fez um exame.
- Quais conclusões podemos tirar disso?
- Mano, que é um bando de filho da puta! No AMA, eu entendo um pouco, porque é a falta de recurso, tanto que ela falou: “você vai tomar isso: amoxicilina e ibuprofeno. Se em dois dias você não melhorar, vai pro pronto-socorro, porque lá eles vão fazer uma hemocultura pra saber qual é a bactéria e receitar o antibiótico específico pra essa bactéria”. Isso pra mim é um negócio direito, decente. Então, talvez, ela só não tenha aprofundado o diagnóstico por falta de recurso, porque a gente tá falando de um AMA. Você tava lá, você viu como é que era. E a gente tá falando que, meu, sabe, a empresa onde eu trabalho paga todo mês. Eu usando ou não usando paga-se, e não é pouco, por um convênio. E a gente ficou CINCO MINUTOS e ele falou: “Ah, se até sexta-feira você não melhorar, pronto-socorro”, mas não explica o porquê. Tipo, ele só receitou um antibiótico X, que deve ser caro... mas não é o preço que importa. Você sabe, não é que eu seja hipocondríaca, mas eu conheço um tanto de remédios; eu nunca ouvi falar. Ele simplesmente vira e fala: “Vou tratar como pneumonia porque um lado tá fazendo um barulho diferente do outro”. Que diagnóstico é esse? Me explica! Parecia só que ele era tipo o tio do bar. “Ah, meu, enfermagem, só B.O.” – MEU, como você fala assim com um paciente, pro outro paciente??? E é como eu te falei – ninguém mais ausculta tirando a sua roupa. É isso. É tanto absurdo que eu não tenho conclusão. É tudo um bando de filho da puta. Tá tudo errado. Tudo está errado.
- Você acha que os convênios estão fazendo atendimento de pastelaria?
- Ah, pelo amor de deus, claro que sim! Claro que sim! Os convênios têm tudo atendimento de pastelaria! E era pro tratamento ser excelente, porque é o hospital do convênio.
- Então, entendemos que aqui temos dois problemas: de um lado, um tratamento incompleto por falta de recursos.
- Sim, por falta de recursos. E quando a gente fala em recursos a gente diz de tudo. De recurso humano, porque você viu que tinha dois médicos, a médica tava lá fazia mais de 10h... você entende? Mais de 10h? E recurso de equipamentos, de coisas...
- Sim, recurso financeiro, recurso técnico, recurso geral. Em contrapartida, temos do outro lado, um atendimento incompleto sendo que há recursos técnicos, recursos financeiros, recursos humanos... Onde está a falha desta segunda situação? Se não faltam recursos.
- É isso: em tudo. As pessoas estão cagando se você tá bem ou não tá. “Ah, vou te dar aqui um atestado de quatro dias, você fica feliz que não vai trabalhar, fica aí com um ‘diagnostiquinho’ de pneumonia, toma uns remédios, fica em casa descansando...” – porque se eu for tomar um antibiótico, eu poderia estar com uma infecção X ou realmente com uma pneumonia – poderia estar com qualquer coisa. Com o antibiótico, é claro que eu vou sarar. Então, na verdade nem importa o que eu tenho. Pode causar outra coisa? Eventualmente pode. Pode bagunçar outra coisa? Eventualmente pode. Mas todo mundo fica feliz, porque ele ganha pelo atendimento, então o dele tá pago; o convênio continua recebendo; em teoria eu tô bem porque vou tomar um antibiótico que vai me fazer melhorar de QUALQUER COISA, e vou ficar em casa quatro dias... é uma lógica torpe como se todo mundo saísse ganhando!
- Sim.
- Mas não é certo!
- Não.
- Não é ético!
- Não.
- Você entende?
- Aqui, eu entro num questionamento: como a gente pode trabalhar medicina com ética se a medicina se transformou em produto, que passa pela lógica de mercadoria, que é inserida na lógica do capital, que portanto visa LUCRO?
- Não tem. Não tem como.
- Então como a gente pode reclamar por ética dentro da medicina no sistema capitalista? Olha eu xingando o sistema capitalista de novo... rsrsrs
- Mas é isso. Não tem! Porque o moleque que é filho de pai rico vai estudar na USP e por mais que em teoria ele é obrigado a atender no AMA, porque ele fez uma faculdade pública com o dinheiro do contribuinte, então ele tem obrigação de retornar isso para o contribuinte, servindo no AMA – essa é a lógica. Mas você acha que ele vai querer ficar 10h no Engenheiro Goulart atendendo a um monte de gente que não tem recurso e que às vezes não toma banho em casa? Ele não vai atender a essas pessoas. Ele vai querer atender, meu, num hospital particular. E se ele não for bom o suficiente pra atender num Sírio, ele vai atender num hospitalzinho furreca no meio de Higienópolis. E a saúde, como você falou, é uma mercadoria dentro do capital. Não existe ética. Quando as pessoas vão entender que não existe ética dentro do capitalismo? A gente só finge que existe ética em casos nos quais é preciso manter as rédeas sobre a população. Aí a gente finge que tem ética. (...) Eu queria uma segunda opinião. Sério, eu tô indignada! Tô indignada! Ainda que realmente fosse pneumonia, cinco minutos de conversa e dois minutos me auscultando não são suficientes para me dar um diagnóstico desses.
- Entendo. E aí eu penso na questão pastelaria justamente pelo lance de quanto dinheiro ele tirou só pra fazer isso. E eu não tô desmerecendo o tempo de estudo, nada disso!
- E sabe o que é bizarro? Aí você vê, o médico recebe R$ 10 por consulta que ele faz. Então, quantas consultas ele faz no dia?
- Linha de produção. Chaplin já falava disso já em “Tempos Modernos” e a gente não aprendeu ainda. A mecanização do homem, a mecanização das relações, pra tudo se transformar em trocas capitalistas onde a ética não existe e a ilusão da ética serve pra nos manter nos cabrestos e pra manter as coisas como estão: os opressores oprimindo e os oprimidos oprimidos.

Se não é possível desconstruir engrenagens como bolas de demolição, que a desconstrução das sementes de tragédia nas mentes de cada um de nós seja feita com sementes de revolução.


"Rebeliões são formadas pela esperança." - Jyn Erso.

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