Oi, meus queridos! Tudo bom?
Quem me acompanha sabe: eu sou só um cara que está sempre puto porque estar puto gera alguma ação e impede que eu fique triste com a situação do nosso país, da nossa sociedade, da nossa cultura etc.
Hoje eu queria falar diretamente pro pessoal do rock e do metal que tá aplaudindo aquilo que aconteceu em Paraisópolis. Caso você não seja de São Paulo (ou tenha se afastado da internet para manter sua saúde mental em dia), Paraisópolis é um "bairro favelizado" (olha a gourmetização da quebrada) da cidade de São Paulo, pertencente ao distrito de Vila Andrade, localizado na zona sul paulistana. Houve uma chacina. Houve um massacre lá em Paraisópolis quando a polícia invadiu arbitrariamente um evento de funk com aquele discurso de sempre: tem drogas... enfim. As mesmas drogas que tem quando você vai nas festinhas do Mackenzie (mas a polícia não invade - a polícia faz segurança).
Eu vi bastante gente justificando a ação da polícia e colocando o rock num patamar de superioridade com comentários como: "Se nos eventos de rock que você vai rola droga, pode ser. Nos que eu vou, também. Mas eu nunca vi ninguém segurando um fuzil". E é sobre essa frágil garantia de segurança que eu queria falar.
O que me preocupa é que o pessoal do rock e do metal, como cidadãos, está sujeito às curvas da civilização. Como sempre citado pela minha esposa, hoje vivemos um momento de "pós-realidade", no qual os fatos em si não são tão importantes quanto as "opiniões". Então as pessoas começaram a questionar a ciência, a história, a sociologia... Porque o João, que tem acesso à internet, viu meia dúzia de vídeos de um youtuber saído sei lá eu de onde, agora pode questionar e desacreditar em a terra ser ou não plana, na importância de Newton para a ciência, nas evidências do Holocausto... Estamos negando a História!
Quando você que curte rock e metal olha para o funkeiro e afirma não gostar de funk, tudo bem. É seu direito preferir banguear ou pogar em vez de rebolar a raba. Mas lembre-se. Sua posição não faz a menor diferença para quem controla a sociedade. Sua posição não faz a menor diferença para os donos do poder. O rock sempre foi um estilo marginal. O metal, mais ainda. Então, eu decidi fazer uma rápida linha do tempo para ver se a gente consegue resgatar a importância desse conhecimento.
1950's - O rock que veio do R&B, música de preto; é associado ao satanismo. E quem tava tocando guitarra e arrebentando era o Chuck Berry, preto e gay. O Rei do Rock, Elvis Presley, só se tornou rei porque era um branco fazendo música e dança de preto.
1960's - Explosão dos Beatles (não confundir com BTS) e dos Rolling Stones. Acho que não preciso falar sobre como isso se relaciona com drogas, sexo e satanismo, né? Os Stones têm uma batucada chamada "Simpatia pro Capiroto", além de seu guitarrista Keith Richards ter usado drogas ao nível de cheirar até as cinzas de seu falecido pai (algo que o Aécio Neves chamaria de "uma quarta-feira normal")! O terror das mães conservadoras no Brasil nos anos 1960 era "ter meu filho fumando droga em rodinha de ie-ie-ie". Sim, o rock era chamado de "ie-ie-ie". E você achando estranho as pessoas ouvirem "brega-funk" com a Tainá Costa! O mesmo medo de "meu filho fumando droga" é o que hoje se associa ao funk. "A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa", como já diria um Youtuber da Alemanha. E eu não estou falando de qualidade musical. Mas é inegável que a história está se repetindo.
1970's – Graças a Papai do Céu (ou ao Papai do Chão) surge o Black Sabbath e começa aquilo que a gente ia chamar de Heavy Metal. Ozzy Osbourne (primeiro vocalista do grupinho) comendo cabeça de morcego, músicas falando do capeta, muitas drogas... Você realmente acha que a galera conservadora levava “de boa” bandas como o Black Sabbath? Pensa nesse rolê num mundo que ainda se recuperava dos desastres econômicos da 2ª Gerra Mundial. Por favor. Nos 1970's também tem Yes, Genesis e Pink Floyd, todos herdeiros de Woodstock! Pink Floyd era uma banda formada basicamente por usuários de LSD! Gênios? Sim. Mas, como diria sua tia que votou num certo presidente, "um bando de nóia" - não são diferentes dos caras que defendem a maconha no funk. E obviamente não podemos esquecer do punk. O punk foi um movimento de contracultura, contra o sistema, contra as políticas da Margareth Tatcher na Inglaterra e a situação política de bosta que o país vivia. Nos EUA o movimento também era bastante forte, dando início a uma outra expressão mais "do gueto", o Hardcore - movimento que conversava com a cultura hip-hop (olha os preto de novo). Agora reflita: se você fosse um polícial racista nos EUA (padrão) na década de 1980, qual você acha que seria sua relação com os punks e a galera do hardcore?
1980's - Estouro do Hard Rock e do Glam, com Guns' N' Roses, Mötley Crüe, Skid Row (maravilhoso)... Tem música do Guns N' Roses abertamente relacionada a sexo (recomendo "Rocket Queen" para chocar a família tradicional brasileira). Dá uma lida na letra de "Livin' on a Prayer" do Bon Jovi e vê se ela se alinha ao discurso conservador. E não é sequer necessário mencionar a quantidade de drogas que essa galera usava, né? Steven Adler, ex-baterista do Guns N' Roses, usava tanta droga que uma vez o Pablo Escobar comentou "Joven, ¿no crees que estás usando demasiadas drogas?"; o Mötley Crüe era uma banda movida a drogas; o vocalista e o guitarrista do Aerosmith eram conhecidos como "gêmeos tóxicos". Só pra mencionar alguns casos.
1990's & 2000's - Tivemos Nirvana, Rage Against the Machine e System of a Down. E é isso. E eu nem mencionei as bandas de heavy, death, thrash, black metal, evocando o capeta e blasfemando com baterias a 666km/h. Tampouco mencionei o Sepultura, que fala mal da polícia em praticamente todos os discos!
Toda essa galera está falando coisas que levaram o rock e o metal a serem caçados e censurados. Tudo isso pra hoje o camarada com uma camiseta do Megadeth gritar que funkeira é vagabunda (sendo que a letra de Mechanix do Megadeth fala sobre transar com fãs).
Gente, não estou aqui para xingar ninguém, mas para unir forças. Porque você, roqueiro de direita, headbanger conservador, pode sim ser a próxima vítima da opressão. Vide a declaração do presidente da Funarte.
E, como disse anteriormente, não tem problema não gostar de funk. O que não dá pra fazer é passar pano para excludente de ilicitude sendo aplicado à juventude preta, pobre e periférica pelos agentes do Estado. A mesma droga que rola no baile funk, rola nas festinhas do Mackenzie e da PUC. Se você não consegue fazer uma relação entre as diferenças de etnia e classe (obrigado, Angela Davis) que levam a polícia a fazer a segurança para as festas do Mackenzie e da PUC enquanto INVADE o baile funk matando pessoas, a caixa de comentários tá aberta. Meu inbox também.
Realmente precisamos ampliar nosso campo de visão. Se você acha que por não ter fuzil no seu rolê você está seguro, a lógica da opressão, que é "Eu quero - Eu faço", está sendo ignorada. Enquanto você se justifica dizendo que não tem fuzil no seu rolê, o fato de você ouvir música do capeta já pode garantir que você vá para "Ponta da Praia" ou seja desovado numa cova clandestina, dependendo da sua classe ou da sua etnia.
Essa empatia pode valer sua consciência.
Essa união pode valer sua segurança.
Essa reflexão pode valer sua vida.

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