Mas e o ABOLICIONISMO PENAL?


Oi, meus petit-fours de revolta. Hoje é dia de ser histórico e controverso, meuza moris, porque sou desses. 

Linha do tempo:

1452 - O Papa Nicolau V autoriza os portugueses a reduzirem os africanos à condição de escravos sob a justificativa de cristianizá-los. Basicamente ele disse: "Vou ferrar vocês para que vocês não sejam ferrados pelo capeta.". E ele nem deixou espaço para uma reflexão entre sofrer nas mãos do Mochila de Criança ou nas mãos dos portuga, isso que é foda...

1539 - Os primeiros africanos escravizados chegam a Pernambuco. Ensinaram pra mim que era necessário escravizar os negros porque os índios eram "indolentes e preguiçosos" (tipo, pegavam um atestado com o Pajé e não colavam no trampo). Depois eu descobri que, na real, os colonizadores mataram geral os nativos mesmo.

1787 - Surge o movimento abolicionista na Inglaterra, refletindo que, se pá, os negros talvez fossem gente. Como no século seguinte os ingleses já mandavam na porra toda, eles começaram a pressionar os BR pra acabar com essa putaria de escravidão.

1845 - Os ingleses lançam a Lei Bill Aberdeen, que apreende qualquer navio negreiro. Os BR meio que seguem a lei "pra inglês ver", mas o tráfico segue debaixo dos panos.

1871 - Lei do Ventre Livre, fazendo com que filhos dos escravos não fossem considerados escravos. E obviamente, esses filhos livres passavam as férias em Ibiza e tiravam um aninho sabático na Etiópia pra relembrar as raízes... Só que não.

1885 - Lei do Sexagenário, libertando da escravidão os 60+, para que pudessem praticar bocha e correr no parque. 

1888 - Princesa Isabel, aquela fofa, libertou geral. Era uma época tensa. Tinha rolado uma revolta de escravos no Haiti onde os caras mataram geral os seus senhores. E os senhores de engenho do Brasil, que tinham medo de revoltas parecidas, não podiam nem ameaçar os escravos com um AI-5. Até porque 58% da população era de ascendência africana. A coisa tava realmente preta para os escravistas. Já começava ali o projeto de embranquecer o país. Quem viveu os anos 90 viu isso bonitinho assistindo a O Rei do Gado e Terra Nostra. Em 350 anos de tráfico negreiro, entraram no país cerca de 4 milhões de africanos; entre 1870 e 1930 vieram morar aqui praticamente 4 milhões de imigrantes europeus. E enquanto isso, muita gente diz que não houve programas sociais para os negros. Isso é uma grande mentira. Houve programas pensados especificamente para a população negra sim! Foram programas de extermínio? Foram, mas nem tudo é perfeito, né?

De lá pra cá, a lógica é bem simples:
• Demonizar a imagem do negro "livre" na sociedade, impedindo-o de conseguir emprego;
• Instituir o crime de "vadiagem" para prender desempregados (que obviamente eram, em sua maioria, negros);
• Demolir os antigos casarões abandonados dos barões (que já haviam se estabelecido nas cidades em bairros nobres recém surgidos). Esses casarões haviam se transformado em cortiços (um beijo, Aluísio de Azevedo) e quem descobrir qual era a população prejudicada com essas demolições ganha um cinnamon roll vegano - era o início das favelas;
• Importar dos EUA um modelo falido de guerra às drogas, que só serve para prender população pobre, negra e periférica, e em décadas não foi capaz de sequer diminuir as mortes relacionadas ao tráfico e ao vício.

É assim que chegamos a 2019 com uma das maiores populações carcerárias DO MUNDO (sendo negros 61,7% dessa galera), mesmo tendo ciência de que o sistema carcerário não resolve absolutamente nada.

E o que eu, acompanhado de mentes brilhantes, sugiro? Acabar com o sistema carcerário. Não, não é reformá-lo para que os presos façam yoga e tai-chi chuan e, após soltos, retornem às condições que os levaram à criminalidade. É abolir mesmo.

Mas Allan, como fica nossa segurança se a gente acabar com as cadeias??? - Bom, o sistema carcerário prende ladrão, estuprador, traficante e assassino há uns 200 anos no Brasil. E após 200 anos, finalmente não temos mais roubo, estupro, tráfico e assassinato, certo?

A questão que não é levada em conta é que são tratados os sintomas, mas nunca a causa. E não adianta meter aqui estudos de Cesare Lombroso ou outros filhos da puta racistas metidos a cientistas, porque o nome disso "eugenia". Os crimes (que são basicamente coisas que alguém com dinheiro e poder decidiu que não eram interessantes, como por exemplo o cultivo de maconha) seguem "adestrando" sociedade através do medo. O medo de ser vitimado para uns. O medo de ser acusado para outros.

Os direitos humanos da sociedade serão garantidos por um sistema que desrespeita todos os níveis de direitos humanos? Os crimes de racismo, feminicídio e homofobia serão realmente resolvidos por um sistema estruturalmente racista, misógino e homofóbico? É sério que isso realmente faz algum sentido para alguém?

Ângela Davis (se não conhece, eu te dou 10min pra fazer uma pesquisa no Google e voltar aqui) comentou em 2017: "Uma pergunta a ser feita pode ser: o quão transformador é o ato de simplesmente mandar um homem que cometeu violência contra mulher para uma instituição que simplesmente reforça e produz ainda mais violência? Ou será que simplesmente essa retribuição vingativa, seria suficiente? Ou nós estamos realmente comprometidos a purgar a sociedade deste tipo de violência?". E é disso que falo. De alternativas. Não é porque "sempre foi assim" que tem que continuar sendo. Não é porque os colonizadores portugueses decidiram que era o melhor jeito que é o único.

Descolonize seu pensamento!


… E todos nós andamos por aí não sendo exatamente quem gostaríamos de ser e, portanto, uma das coisas mais importantes de abrir espaço para alguém é criar o espaço em que eles possam entrar e ser a pessoa que gostariam de ser... porque estamos lidando com transformação... de nós mesmos... e cada pessoa que encontramos - REUTER, Jérôme.

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