Mas e ROJAVA?

Era uma vez um reino muito antigo, perto da Pérsia, chamado Curdistão, ou "Terra dos Curdos". Esse reino foi dominado e dividido por dois impérios: os persas e os otomanos. Com o fim do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial, o Curdistão foi novamente separado entre quatro países: Irã, Iraque, Síria e Turquia; cada um com sua história. Mas o Curdistão Sírio, o menos populoso dos quatro, resolveu seguir um caminho único. Um caminho onde a polícia é trocada por órgãos de proteção civil. Onde não há pena de morte, e prisão somente existe para assassinato, tortura ou terrorismo. Onde as escolas também abordam teoria feminista, resolução não violenta de conflitos e autodefesa. Onde tribunais são substituídos por Comitês de Paz & Consenso, e os juízes e mediadores são civis eleitos diretamente pela população. Onde crimes cometidos contra mulheres só podem ser julgados por mulheres. Um caminho que pode acabar a qualquer momento se nada for feito. Antes de continuar, questione-se: por que você não conhece Rojava???

Meus amores, a história toda é bem longa, mas vou focar só no essencial (busquem o restante da história - deixarei links, mas pode falar comigo ou com seu internacionalista preferido). O Curdistão Sírio, mais conhecido por Rojava, é a experiencia revolucionária mais linda e fértil de nossa história recente. Sabe quando você fala que não aguenta mais o capitalismo e tal, mas te dizem que um modo de vida alternativo é "utópico"? Lá esse modo de vida tá rolando. Fim da violência policial? Igualdade de gênero? Acolhimento pacífico de diferentes fés, etnias e culturas? Uma educação edificadora e de resistência à opressão? Um modo de gestão social horizontal classificado como "Confederalismo Democrático"? Tudo isso tá se encaminhando por lá. E tudo isso peitando o Estado Islâmico! Da hora, né? O establishment capitalista internacional não acha tão da hora assim...

O Partido da União Democrática, PYD, principal responsável por toda essa revolução em Rojava, vinha recebendo ajuda dos EUA contra o Estado Islâmico. Era meio que a única alternativa do PYD para sobreviver. Tudo muito bom, tudo muito bem... pena que em 6/out, Trump retirou as tropas estadunidenses da região e deu carta branca a Erdoğan, presidente turco, para invadir aquele território, dando continuidade à limpeza étnica e ao genocídio do povo curdo. Erdoğan é um mano que fica evocando um passado glorioso turco, da época do Império Otomano e talz, tipo o Mussolini fazia com o Império Romano. Já deu pra sacar qual é a do bonito, né? 

Desde 2012 o povo de Rojava, além de reorganizar o modo de viver de uma sociedade, combate ativamente o Estado Islâmico. É praticamente uma versão de "Vilarejo" da Marisa Monte. Só que com sub-metralhadoras. Toda a conversa de "Mexeu com uma, mexeu com todas", "Ninguém solta a não de ninguém", "Eu serei a resistência" e tantas outras, lá são mais que filtro na foto no Facebook. São ações reais mudando uma sociedade. Ações que já geraram frutos muito benéficos para qualquer um que preze por democracia, Direitos Humanos e solidariedade internacional.

Esse povo, os curdos de Rojava, podem simplesmente desaparecer se depender das investidas turcas. E já tem gente divulgando fake news da luta armada de lá, o que só deixa mais claro os interesses desonestos por trás das ações que estão sendo levadas a cabo na região. Informe-se. Saiba que sempre tentarão convencer você que não tem jeito e é isso aí, mas tem gente, muita gente, mostrando que há outros caminhos. Eles só não podem morrer sem que você os conheça, os divulgue e os defenda.

Teologia de Boteco: ROJAVA, Uma outra revolução, com Florencia GuarchViracasacas Podcast: Rojava: A Revolução dentro da Guerra são duas ótimas referências para quem quer se aprofundar no assunto, bem como os livros A Revolução Ignorada. Liberação da Mulher, Democracia Direta e Pluralismo Radical no Oriente MédioSoresa Rojavayê: Revolução, uma Palavra Feminina.

Eu queria mesmo que cada um que passa por aqui dedicasse 10 minutinhos pra saber que fita tá rolando em Rojava e por qual motivo, mesmo com a guerra na Síria ocupando tanto espaço nos noticiários há tanto tempo, ninguém comenta dessa galera.


Meu palpite é simples: olhar para a guerra e entender que as coisas poderiam estar bem piores te deixa complacente. Olhar para a revolução e compreender que as coisas poderiam ser muito melhores te torna perigoso.

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