Mas e o PORNÔ?


Atenção: o texto a seguir fará uso de vocabulário abertamente sexual, eventualmente chulo e certamente doloroso, independentemente da quantidade ou qualidade de lubrificante utilizada ao longo da leitura. Não é, de maneira alguma, um texto moralista, muito menos conservador, tá okay?

Avisos realizados, vamos aos fatos. Eu, um homem negro, suburbano, brasileiro, hétero cisgênero nascido em 1986 fui educado sexualmente como a maior parte dos homens de minha época: através da pornografia. Nos anos 1990, isso era meio que um padrão. Tudo bem que o fato de não ter um videocassete em casa ao longo de anos (chegou, ficou aproximadamente um mês, quebrou, partiu e nunca mais voltou, tipo a mina do Tim Maia) colaborou para que essa relação fosse mais "bibliográfica", afinal cresci com um pai de 1960 e um irmão de 1979. Fontes de pesquisa bibliográfica não faltavam!

No entanto, essas fontes eram basicamente fotografias de moças nuas em poses e situações cotidianas, como escovar os dentes, comer uma torta ou afirmar que o Palmeiras não tem Mundial. Nada muito fora da realidade, se ignoramos a nudez. Até que, ao mesmo tempo em que o efêmero videocassete visita minha casa, surge, como que por mágica, um VHS com o sugestivo título "Brincando com fogo". O ano era 1995 e, graças às revistas femininas da minha mãe a aos livros de "ciências" (biologia) do meu irmão, eu já tinha todo o conhecimento sexual científico que dava para se obter através da literatura. Gônadas, zigotos, corpos cavernosos, canais deferentes e Trompas de Falópio (era assim que se falava nos anos 1990!) não eram nada de desconhecido para mim. Mas aquele VHS apresentaria outros níveis de "sexualidade".

Assisti somente a uma cena, que parecia durar uma interminável hora. Vamos à narrativa: uma jovem branca, artificialmente bronzeada, na casa de seus 25 anos, loira, usando kanekalon e pouco se importando com a apropriação cultural, estava se exercitando numa academia. O decote expunha seios de tamanho por mim nunca vistos, sequer imaginados. Questionava-me se uma eventual lordose dado o tamanho das mamas daquela moça poderia servir de base para processo por danos decorrentes da profissão. Além dos desproporcionais seios, a atriz trajava micro shorts jeans, deixando metade da polpa da bunda de fora. Quanto à exposição, tudo bem – as pessoas são livres. Mas quem, em sã, consciência, vai para a academia com shorts jeans??? Não podia mostrar metade da bunda usando lycra ou outro tecido com elastano para ter melhor aproveitamento do treino? O exercício praticado era o de tríceps com cabo. Visivelmente não havia peso algum na máquina, mas com a maestria de uma Fernanda Montenegro a garota demonstrava esforço e desenvoltura. Subitamente surge o ator que daria sentido à cena: um rapaz também aparentando 25 a 30 anos, alto, negro e consideravelmente malhado. O penteado fazia jus à década. Eis que o referido moço apalpa o que cabe de peito da garota em sua mão esquerda enquanto a direita já vai direto para dentro da (talvez) calcinha dela. Assim, do nada, no meio da academia (que estranhamente estava vazia). Um beijo ensandecido de 3 segundos dá início à ação.

A garota joga o jovem noutro aparelho e rasga a camiseta dele como se esta tivesse sido comprada de baciada no Brás. Ela lhe abaixa as calças e o que surge naquele momento traumatizaria qualquer cristão. O membro do moço era de dimensões tão ajumentadas que temi pela segurança daquela garota. Por vezes questionei se o que o vídeo me mostrava não seria, talvez, uma tora de madeira estilizada no lugar do supino do mancebo. Pois bem: quando ela coloca aquela lança olímpica próximo à garganta e começa a prática do famigerado “boquete”, a mulher é tomada de um vigor tão extremo que nem mesmo o maior, mais fiel e devotado fã de heavy metal seria capaz. A atriz não chupava o pinto do rapaz; ela bangueava em sua virilha! Temi, de verdade, que sua nuca viesse a ser transpassada por aquela lança romana de sabe-se-lá quantas polegadas! Houve tempo para me acostumar àquele movimento assustador, pois a moça chupou o rapaz por uns 10 incessantes minutos. Certamente, saiu da cena direto para uma sessão de RPG naquele pescoço!

O rapaz joga a moça em algum local ignorado, as roupas dela somem como que por mágica e ele começa a enfiar dedos e língua em todos os orifícios possíveis daquela mulher (todos mesmo!). Embora os gemidos dela fossem traduzidos em frases desconexas como “Oh, yes, me fode” (certamente era o tradutor do Multishow que trabalhava nesse filme), o olhar dela pedia socorro. Imaginei que ela talvez não tivesse passado pela Escola de Atores Wolf Maia, porque embora a legenda bradasse “me fode”, “me come”, “come meu cu”, “deixa eu chupar seu pau” e outras frases prontas, em seus olhos eu só via desespero, como quem diz “alguém por favor tira essa sequoia do meu rabo!”.

O rapaz, como bom lenhador, decide começar a lamber o ânus da moça. Eu, como boa criança de 9 anos de idade, vendo uma pessoa enfiando a língua no cu de outra, tive minha primeira e memorável experiência de reflexo de vômito induzido da vida. Mas não é só isso. Naquela altura, já havia 3 ou 4 dedos do rapaz no fiofó da donzela. A única coisa que eu pensava era: “qual será o preço de uma fralda geriátrica?”. Mas ao mesmo tempo eu também imaginava: “Isso não deveria ser excitante, do tipo, causar ereções? Por que alguém se excita com um cara, cujo pinto já tem o tamanho de um braço, enfiando o braço no cu de uma loira cujos peitos têm o tamanho de sua cabeça?” (O verbete “pau duro” não fazia parte de meu rebuscado vocabulário naquela época). A lógica do pornô não fazia sentido, mas como o mundo assistia pornô, eu entendi que era aquilo que se devia fazer. Segui assistindo.

O moço começou a masturbar a loira. E ele claramente não sabia muito bem o que estava fazendo, pois parecia estar fazendo uma ponta de DJ de hip hop na virilha da garota. Via-se, em meio às frases desconexas da moça e gemidos traduzidos por algum ministro do governo Bolsonaro formado em Harvard, que não estava tão divertido para ela quanto para ele.

Ao final de tudo isso, o cara arregaça o cu da garota por sei lá quanto tempo, goza na cara dela e a única coisa que eu conseguia pensar era: “Em quanto tempo ela vai conseguir tirar isso tudo do cabelo para fazer a próxima cena?”

Após essa primeira incursão, eu aceitava o que o mundo me dizia: “a necessidade da pornografia é real”. O tempo passou e a internet popularizou o acesso a sites pornográficos diversos. As revistas do irmão mais velho passaram de publicações de mulheres nuas para periódicos que mostravam cenas de sexo cada vez mais complexas. Refiro-me a bestialismo, fisting, moças se masturbando com velas de sete dias introduzidas em seus esfíncteres, meninas enfiando pés nos cus umas das outras e eventualmente rapazes que injetam drogas nos seus membros para gravarem cenas de sexo por mais de 3h ininterruptas. Embora nada disso faça sentido se pensado como regra, a sociedade empurra a pornografia como regra a se seguir. Quando eu via os atores pisando nas caras das moças, espancamento e eventuais “encenações” de estupro (apresentado como “torture porn”), não sei o quanto, mas minha mente foi se anestesiando. Em resumo, como a maior parte dos jovens, eu fui sexualmente educado pela pornografia (muito porque qualquer alternativa pedagógica a isso é estranhamente mais imoral em nossa sociedade - é preferível consumir esse material a entender com seus pais e professores que sexo pode e deve ser algo natural). Fui educado a colocar meu prazer acima da dignidade de outras pessoas. Fui educado a ignorar taxas altas de DSTs, suicídios e abuso de drogas na indústria pornô porque meu tesão é mais importante que a vida de uma mulher. Eu fui ensinado que se eu quiser “pegar” uma mulher, o filme pornô ensina como fazer. Eu fui apresentado a todo tipo de coisa que a realidade não poderia me dar, com incesto, estupro, bestialismo, pedofilia e tudo aquilo que no mundo real é imoral, proibido e dá cadeia, mas no mundo da pornografia é permitido. Só esqueceram de ensinar que a pornografia é real. As pessoas ali dentro são reais. E a linha que separa a atuação da prática sem consentimento é extremamente tênue.

Quando me questionam por qual motivo eu não sou um ativista vegano desses que vão pra rua provar que as pessoas estão erradas por consumir carne, eu digo que é porque entendo essas pessoas. Porque mesmo sabendo que outra vida precisa ser degradada para que seu prazer possa acontecer, as pessoas evitam questionar esse prazer, pois dá muito trabalho. Eu faço isso e, por muitos anos, segui ignorando relatos de desumanização em nome do lucro das empresas e do prazer de um consumidor que é exposto a aumento nas chances de disfunção erétil e depressão, para mencionar poucas possibilidades. Por isso eu não aponto o dedo. Só deixo o questionamento:



Quanto vale a sua punheta?

Comentários

  1. Puta que pariu meu querido, que texto incrível!

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  2. Parabéns pelo texto, recomenda outras fontes sobre o assunto?

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